Um Feliz dia das Mães - Sobre Ser Mãe



Nascemos mulher, mas não nascemos mãe.


Há quem diga que a mãe nasce junto com o filho. Mas junto com o nascimento vem também a morte: de antigos papéis, crenças e valores.


Ser mãe é reescrever, apagar, rasgar, remendar tudo o que aprendemos até então.


É não saber e mesmo assim liderar, é sentir insegurança e mesmo assim avançar, é crescer mesmo quando nos sentimos pequenas, é um eterno se superar.


É coisa que não existe no plano físico, está no olhar, na pele, na presença, na intuição.


E assim, sem norte ou referências, guiadas apenas pelo subjetivo, a mãe recém-nascida inicia sua caminhada, dançando entre razão e emoção.


A natureza se mostra tão generosa que as transformações no corpo acontecem de maneira sutil, a cada dia, cada semana, quase como que pedindo licença e negociando os espaços, nos preparando para os próximos passos.


Em seguida, ela nos convida para o maior desafio: a transformação permanente da alma e da mente.


A ocitocina produzida pelo cérebro de uma mãe faz com que este se expanda de tal maneira ao ter contato com seu filho pela primeira vez, que ele nunca mais volta ao tamanho que uma vez já foi. Uma vez mãe, se é para sempre.


Mas muito antes desse encontro de cheiros, químicas e olhares, a maternidade nos convida a ir de encontro a filha e a criança que fomos, a acolher nossas luzes e sombras, nossos traumas e medos, somos mãe-filha.


E nesse turbilhão de emoções, com seu novo e eterno papel, o que a mãe recém-nascida mais pensa é: como fazer a travessia de maneira bem sucedida? Sucesso? Esqueça isso… Não existe manual, receita ou guia para tal.


Poliana ou mulher maravilha, são símbolos que só nos impedem e limitam de criarmos a nossa própria mãe-mulher-versão. Fuja deles e siga sempre o seu coração. Quanta audácia pretendida em buscar sucesso ou perfeição.


Se a vida, a arte e a natureza têm sua beleza única, seus sucessos e insucessos, sua imperfeição, destruição e renovação, por que nós não?




Ser mãe é deixar o silêncio invadir para poder escutar o maior eco de todos: a união de tudo o que temos e podemos oferecer de melhor e mesmo assim saber que vai faltar, porque o que a gente guarda no coração é muito mais do que fisicamente conseguimos entregar.


É saber que mesmo com a melhor das intenções, ainda vamos errar e tudo bem, somos mães-humanas.


Para a natureza, ser mãe é semente de esperança, é amor que se multiplica. É fruto que alimenta e faz crescer. É flor que desabrocha e nos encanta, mas que tem seus espinhos. É raiz que nutre e sustenta. É luz que ilumina. Chuva que lava a alma e faz renascer. É como seus ciclos, abundante, sem fim, com morte, destruição, renascimento e renovação, somos mãe-natureza.


Ser mãe é estar disponível para esse encontro de forças, assim como a água de um rio, que desagua na imensidão do mar.


“Diz-se que, momentos antes de um rio cair no oceano ele treme de medo.

Olha para trás, para toda a sua jornada, os cumes e as montanhas, o longo caminho sinuoso e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre.


Mas não há outra maneira e o rio não pode voltar atrás. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Podemos apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e ir entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece.


Porque apenas então o rio compreende que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano. Por um lado, é desaparecimento e por outro, é renascimento.” *



Ser mãe demanda de desaparecer como rio, para então encontrar nossa verdadeira grandeza, força e beleza, fonte inesgotável, somos mãe-oceano.


E assim como a arte, talvez a maternidade seja o maior ensaio no “palco da vida do feminino”, se você recebeu a dádiva deste papel, permita-se estar diante das cortinas mesmo sem saber o que te aguarda do lado de lá.


Com a certeza de que você não estará pronta, mas ao fim de cada peça ou ensaio, estará cada vez melhor. Improvise, deixe tudo o que tem neste palco: ria, chore, grite, vibre, corra e saia de cena quando assim precisar.


Mas não deixe de comparecer a este espetáculo por inteiro, fazer sua reverência e sair de cabeça erguida. Tenha coragem, faz parte, somos também mãe-arte.


“Desacostumadas da coragem, exiladas da graça, vivemos encolhidas em conchas. [...] Se formos corajosos, no entanto, o amor afasta as correntes do medo de nossas almas. Desacostumados por nossa timidez, no clarão das luzes amorosas. Nós ousamos ser corajosos. E de repente vemos que o amor sacrifica tudo que somos e o que seremos. E, no entanto, é só o amor que nos liberta.”**



Desejo que você possa identificar e libertar todas as mãe-versões que existem em você, todas as que desejar ser ou precisar criar.


Que esse texto possa te inspirar, quebrar suas correntes, deixar seu fluxo de água e da vida se encaminhar, que ele possa renovar todos os papéis, que são somente seu.




Jamais se esqueça, podemos sentirmo-nos pequenas, mas somos oceano.

Podemos sentirmo-nos sem força, mas somos natureza.

Que não há falta de inspiração ou perfeição quando recordamos que somos também arte.

Erraremos, mas não deixaremos de tentar, pois da fonte de onde bebemos, o amor, vontade nunca há de faltar.


E quando não souberes o que fazer, apenas SEJA.


Feliz dia.


Texto, Produção de Moda e Styling: Marcela Baldissera

Fotos: Eliana Milan

Beleza: Kellen Silveira Agradecimentos Especiais: Santalina e Arqflora


* Trecho da poesia O Rio e o Oceano de Khalil Gibran

** Trecho da poesia Tocada Por Um Anjo de Maya Angelou

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